O Pessoal é Político – Maria Gil e Miguel Bonneville

Maria Gil

«Tenho medo de ir à Segurança Social – Maria
Tenho medo que esteja qualquer coisa mal, que percam o meu processo e que me
responsabilizem por isso, tenho medo de descobrir dívidas enormes que desconhecia
porque algures, no meu passado, me esqueci do prazo, de entregar um papel ou de
pagar qualquer coisa ou de fechar actividade ou outra coisa qualquer. Tenho medo de
pagar muito dinheiro por causa de uma distração, por desconhecer como é que se
fazia e de ouvir uma vozinha a dizer, “mas estava ali escrito, mas desde mil novecentos
e tal que é assim, mas não leu o decreto de lei?!”. “Não, não li o decreto de lei”. Tenho
medo de esperar infinitamente e de a pessoa que me atender não me respeitar, de me
fazer sentir culpada, de me fazer sentir menos, de abusar do seu pequeno poder, de
me atirar a com a sua bondade à cara porque consegue dar um jeitinho para eu ter
uma fotocópia carimbada.»

Miguel Bonneville

«Desde muito novo fizeram-me compreender que o simples facto de eu existir pode ser
ofensivo. Quando temos de justificar e, consequentemente, defender a nossa própria
existência, tudo se torna político. Podemos escolher encobrir o que somos, quem
somos, que ideias temos, com quem dormimos, mas há quem não tenha esse talento.
Ou há quem escolha não o pôr em prática. A autobiografia é também uma forma de
denúncia. Denunciar o estado paralisado, o choque pós-traumático de um país.
Denunciar a afeição sociopática pelos valores ditatoriais, pelo medo da liberdade.»

Douda Correria#150

O Pessoal é Político – Maria Gil e Miguel Bonneville

(capa e ilustrações de Bárbara Assis Pacheco/ composição por Joana Pires)

«O Pessoal É Político é um ciclo de palestras-performance inspirado na máxima da segunda vaga feminista que proclamava que o pessoal é político. Maria Gil e Miguel Bonneville criaram uma trilogia de palestras performativas, partindo de diferentes temas, escrevendo textos originais, na primeira pessoa, utilizando como matéria prima memórias, fragmentos e histórias das suas vidas, abrindo espaço para a reflexão colectiva e o debate de ideias. Em todas as palestras-performance, Maria Gil e Miguel Bonneville recriaram performances icónicas da História da Arte Ocidental que se relacionavam directamente com os temas propostos. Este livro reúne os textos de todas as palestras e ainda os textos Narrativas do Eu, escritos durante o processo de criação de Amor e Política, e apresentados no Colóquio Narrativas, Media e Cognição, na Universidade Católica do Porto. Medo e Feminismos estreou em 2013, no Negócio/ZDB. Amor e Política estreou em 2015, no Negócio/ZDB, no contexto do Festival Temps d’Images. Religião e Moral estreou em 2019, no CAL – Centro de Artes de Lisboa/Primeiros Sintomas, no contexto do Festival Temps d’Images.»

Maria Gil (Lisboa, 1978) cria espectáculos despojados e fundados na palavra, estabelecendo uma relação directa e próxima com os espectadores; as suas dramaturgias têm como ponto de partida premissas autobiográficas e histórias de pessoas e de lugares, que recolhe, cruza e ficciona, para construir uma poética do quotidiano. Os seus trabalhos evocam a periferia e a margem, mas também pessoas e lugares em desaparecimento. Colabora regularmente com criadores de várias áreas artísticas, nomeadamente da dança, da música, das artes visuais e do cinema. Trabalha
com várias instituições públicas e privadas, concebendo, desenvolvendo, e realizando actividades e estratégias educativas que articulam a imaginação e o pensamento.

Miguel Bonneville (Porto, 1985) introduz-nos a histórias autobiográficas centradas na desconstrução e reconstrução da identidade através de espectáculos, desenhos, fotografias, vídeo, música e livros de artista. Desde 2003 tem apresentado o seu trabalho nacional e internacionalmente, sobretudo os projectos seriados Family
Project, Miguel Bonneville e A Importância de Ser. Estudou Interpretação na Academia Contemporânea do Espectáculo (2000-2003), tendo complementado os seus estudos com os cursos de: Artes Visuais (Fundação Calouste Gulbenkian/Programa Criatividade e Criação Artística, 2006), Autobiografias, Histórias de Vida e Vidas de Artista (CIES-ISCTE, 2008), Arquivo – Organização e Manutenção (Citeforma, 2013), Cyborgs, Sexo e Sociedade (FCSH, 2016), e Filosofia e Arte (Mute, 2017), entre outros.
Recebeu o Prémio da Rede Ex Aequo (2015) pelos espectáculos Medo e Feminismos, em colaboração com Maria Gil, e A Importância de Ser Simone de Beauvoir.

©Mariana Mesquita

Douda Correria/ Mia Soave no facebook:

https://www.facebook.com/doudascorrerias/

Contacto:

doudacorreria107@gmail.com

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