Civilização – Lígia Soares

«(…)
E, estando parados aqui, não paramos.
Temos muitas exigências do foro individual e dizemo-nos a nós mesmos o foro pelo qual temos de lutar.
Porque sabemos que somos sobreviventes.
Todos.
Independentemente das nossas comodidades.
Pensavam outros que nos domavam o ânimo com o processamento da comida e outros produtos anestesiantes?
Mas não, continuamos tão insaciáveis como sempre fomos.
E somos, pelo menos, sobreviventes dos nossos naufrágios individuais.
E isso já tem de valer alguma coisa.
Ou acham que não?
Sofremos as nossas desilusões porque nos quiseram iludir, e o sofrimento por desilusão é tão válido como qualquer outro sofrimento.
E vocês perguntam-me:
Ou achas que não?
E eu digo:
Com certeza estejam à vontade, temos todo o tempo para sofrer.
E ainda me perguntam:
Ou temos menos direito ao sofrimento só porque vivemos uma ilusão?
E eu digo que a ilusão é tão real no nosso tempo como qualquer outra realidade, e ainda acrescento:
E também pode matar como qualquer outra realidade que seja real.
E vocês dizem, mais descansados:
Ah, bem…
E eu completo que não estou aqui a fazer juízos de valor.
E vocês saltam e ladram de contentes, perdão, vocês dizem com indignação:
Era só o que mais faltava!
E eu aproveito a vossa disponibilidade e interesse neste assunto, para desenvolver mais um pouco:
Temos o direito de nos compararmos aos outros porque, à partida, somos todos iguais.
E vocês repetem:
Somos todos iguais!
Temos o direito de invejar os corpos musculados dos trabalhadores agrícolas dos países do hemisfério sul, e de os usar como objetivo a atingir nos nossos ginásios.
E vocês repetem:
Os direitos a atingir nos nossos ginásios!
Temos o direito de lamentar respirar o ar que poluímos.
E vocês repetem:
O direito a respirar o ar que poluímos!
E de chorar as nossas liberdades morais que nos afastam dos nossos mais fiéis amores e nos aproximam daqueles que não percebem nada do que nos vai cá dentro.
E vocês repetem:
Reclamar o que nos vai cá dentro!
Temos o direito, temos os direitos, podemos dormir descansados.
E vocês repetem:
O direito a dormir descansados.
E continuam sempre a repetir mesmo enquanto dormem.
O direito a dormir descansados, o direito a dormir descansados, o direito a dormir descansados, o direito a dormir descansados…
(…) »

Douda Correria#102 

Civilização – Lígia Soares

(capa de Marco Franco/ composição por Inês Mateus)

CIVILIZC capa.jpg

 

Imprensa/ Blog´s

Time Out| Por Miguel Branco | 11.04.2019:

Jornal Público | por Gonçalo Frota | 11.04.2019:

«A inquietude de Lígia Soares diante das regras

Até 21 de Abril, no CAL – Primeiros Sintomas, a dramaturga e actriz volta a desafiar a passividade a que o espectador está habitualmente entregue. Civilização vive da violência de haver quem fale e decida por nós.

Logo à entrada, um primeiro convite à interacção – ou até mesmo à invasão. Cada espectador é convidado a levar consigo uma peça de cenário que deverá depositar em cena. Só para que esteja consciente, desde o segundo inicial, que Lígia Soares está a implicá-lo em Civilização. Para que não lhe passe pela cabeça, desde que transpõe a porta do CAL – Primeiros Sintomas, que o papel a ser-lhe previamente atribuído é o de se sentar confortavelmente e esperar, mudo e quedo, por um pequeno entretenimento montado só para lhe agradar e nada lhe exigir em troca.

Há já algum tempo, aliás, que Lígia Soares vem pondo palavras na boca dos seus espectadores. Para os despertar da passividade a que habitualmente estão votados e resignados, claro, mas também para depositar uma semente de inquietação que obrigue a assistência e posicionar-se perante o espectáculo que lhe está a ser proposto. Está cansada de o lugar do espectador se resumir muitas vezes a escolher colocar-se do lado do “gosto” ou do “não gosto” e a sua relação com uma criação poder, em muitos casos, resumir-se a essa cruzinha desenhada de forma pouco comprometida. Como se o teatro ou qualquer outra área da criação artística fosse pouco mais do que um enunciado de escolha múltipla.

Talvez porque Lígia Soares partiu da dança, a relação com o corpo e com a presença dos outros nunca lhe pareceu passível de ser tratada de uma forma tão desigual – em que ao intérprete cabem a expressão e a exposição plenas, e ao público a fruição silenciosa. A presença de uma plateia era demasiado concreta para ser reduzida a uma dimensão quase fantasmagórica. Em 2008, ao aproveitar um momento em que nenhuma produção a ocupava, resolveu escrever uma peça que só poderia ser, de facto, testada perante espectadores: Lígia era guiada por uma voz off e lidava com isso em palco. Esse género de dispositivo apareceu então em Turning Backs, espectáculo em que nem sequer havia um actor em palco, uma peça “feita para os espectadores agirem como um coro”, cabendo-lhes dizer o texto; em Romance, em que o público era intimado a seguir as suas instruções e a repetir as frases por ela ditadas.

Mais do que invasão do espaço do espectador, a ideia passava pela manipulação, até mesmo de uma forma que se pode considerar violenta – por forçar ou impelir alguém a aceitar um discurso que não lhe pertence, criando e minando num mesmíssimo momento um canal de comunicação. Esse dispositivo ecoava os conflitos resultantes da democracia representativa ou de qualquer outra situação organizada em que indivíduos e colectivos se vêem na situação de terem alguém que fala por si e assume a sua voz. Lígia quer perturbar essa relação, quer desestabilizar essa passividade. E fala da analogia que existe no “facto de estarmos sentados em cadeiras, conformados a um sítio que nos é dirigido, e o ocuparmos ao lado uns dos outros sem nos envolvermos fisicamente – mesmo que haja um corpo colectivo” a ser formado.

“Pode haver um lado ético no sentido de pensar sobre o conformismo e tornar isso algo mais consciente”, diz a respeito de Romance mas também de Civilização. “Estamos conformados, educados, convencionados também neste espaço do teatro. E quero tornar isso uma possibilidade de linguagem.”

Boas maneiras
“Mas que raio de ideia vos passou pela cabeça para trazerem este arvoredo todo para o palco?”, pergunta Lígia Soares depois de os espectadores já estarem acomodados ordeiramente nos seus lugares. Na verdade, a didascália com que iniciou a escrita de Civilização, no âmbito do primeiro Laboratório para Escrita de Teatro dirigido por Rui Pina Coelho, ao longo de uma temporada do Teatro Nacional D. Maria II, foi uma forma de começar por dispor pistas que conseguia identificar na sua voz autoral, puxando o público para dentro de cena e criar, desde logo, outras vozes além da sua. Era um “sítio transparente”, um lugar “em que não há ficção ou em que a ficção é só um trabalho do discurso sobre o significado das coisas”. E uma forma de engrenar na escrita quando, até então, tinha sempre obedecido a um impulso.

As folhas de palmeira levadas para o palco do CAL – Primeiros Sintomas, em Lisboa, em cada uma das noites em que Civilização será apresentado, entre 11 e 21 de Abril, sinalizam também o gesto artificial da criação de espaços verdes com uma “natureza deslocada da sua origem”, usada para “tapar um bocadinho a aberração das cidades onde vivemos”. Claro está que não tapa nada, apenas acentua a noção pervertida da palavra “civilização” que Lígia quer dissecar no espectáculo, mesmo que nunca siga qualquer atalho ou via absolutamente explícita. Esse artificialismo rapidamente a conduziu a um outro: do palco enquanto lugar de “representação de nós próprios, de reflexão, de não existência”, em que a sua própria condição de actriz é assumida como condutora desse acordo tácito de faz-de-conta e de fabricação narrativa.

“Ainda fui educada a pensar nas palavras ‘civilizar’ e ‘civilização’ como algo positivo”, comenta em relação ao estabelecimento de regras e de ordem que fornecem segurança mas que, em Civilização, rapidamente se intui que transporta uma carga agressiva. Civilização como sinónimo perverso de boas maneiras, de coerência, de boa educação, de cuidado com as palavras porque são perigosas e podem ofender, de bom gosto – enquanto gosto validado e tido como norma à qual todos devem obedecer. “A nossa identidade ocidental está muito assente num discurso envelhecido, nas nossas opiniões e no nosso exercício de identidades individuais e distintivas.”

No início do segundo acto, três espectadores (na verdade, os actores Mia Tomé, Rui Pina Coelho e Gonçalo Plácido) passam para o palco depois de Lígia alegar que lhes/nos dá “mais importância do que na maioria dos espectáculos”. Em alguns outros espectáculos, acusa, “nem sequer olham para vocês – deixam-vos para aí…” E enceta então diálogos com esses três exemplares de espectadores que terminarão sempre no abandono, acabando por deixar a actriz sozinha em palco, entregue à sua verborreia, a uma inquietude permanente de alguém que fala por si e pelos outros e não consegue estancar o discurso. Pelo menos, até à entrada em cena de um cardador (figuras carnavalescas de Vale de Ílhavo), a quem se permite uma série de comportamentos habitualmente tidos como aberrantes e sem consciência do espaço privado. Talhado, portanto, para acabar com qualquer resquício de segurança que possa defender o espectador e abrir uma frincha de selvajaria e descontrolo no ambiente controlado da… civilização.»

https://www.publico.pt/2019/04/11/culturaipsilon/noticia/inquietude-ligia-soares-diante-regras-1868399

 

GERADOR | «Na “Civilização”, em busca do espectador emancipado»09.04.2019:
Estreia/ Lançamento11 ABR | 21h30 | Primeiros Sintomas
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Lígia Soares/ Douda Correria

https://doudacorreriablog.wordpress.com/tag/ligia-soares/

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Lígia Soares (Lisboa, 1978) é uma coreógrafa e dramaturga portuguesa que tem vindo a questionar o espaço cénico como um espaço distanciado. Começou o seu trabalho profissional com a Companhia de Teatro Senssuround em 1997. Foi artista residente da Tanzfabrik- Berlin entre 2004 e 2006, foi bolseira da DanceWeb em 2018 (Viena) o seu trabalho tem sido apresentado nacional e internacionalmente estando presente em vários programas de teatro e dança contemporânea. Promoveu vários programas nacionais e internacionais de programação com outros artistas ou em projetos coletivos como o Demimonde. “Celebração”, Culturgest 2012, “Demimonde na Galeria da Boavista”, 2013, “Meio-Mundo Estrada Fora”, Lisboa/Porto/Madrid/Paris, 2014, “Face a Face- Programa Luso-Brasileiro de Artes Performativas”, 2015, Brasília, 2016, Rio de Janeiro. Na temporada 2015/2016 foi membro do laboratório de escrita para teatro do TNDM II em Lisboa para o qual escreveu a peça “Civilização”.

Na sequência de trabalhos como “Romance”, “Teatro Dentro de Nós” ou “Turning Backs” prossegue uma pesquisa em como criar dispositivos cénicos inclusivos da presença do espetador como elemento constituinte da dramaturgia do espetáculo, incorporando ou substituindo o próprio papel de performer. O seu trabalho “O Ato da Primavera” estreou em Outubro de 2017 no TNDM II e inclui uma curadoria em que convida sete dramaturgos portugueses a escreverem peças para um dispositivo constituído por telepontos. As suas peça “Romance” (2015) e “Cinderela” (2018) estão editadas pela Douda Correria. “Cinderela” ganhou o prémio Eurodram 2018.

Lígia S. _foto_ Estelle Valente.JPG

Fotografia: Estelle Valente

 

 

Douda Correria/ Mia Soave no facebook:

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Contacto/Pedidos:

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