A periferia e outras varandas – João do Nascimento

«Deixei-me esquecido no bolso da outra camisa. Lembro-me de me certificar de que eu estava no bolso desta camisa e no entanto. Não sei bem, ando cansado. Desço as escadas e depois subo as escadas e então os pés assim na rua é como se

Deixei-me esquecido no bolso das outras calças, agora lembro-me, foi quando fui à sala, foi no enquanto me procurava na carteira, entre os trocos, duas ou três palavras que trocámos, agora lembro-me, foi a última vez que me vi, trocámos duas ou três palavras, tinha vestido um blazer azul e uma gravata de uma cor que não condizia muito bem com o blazer referido, é como se, e depois a janela aberta no mais ou menos deixa entrar uma espécie de brisa, uma leveza de sono, uma transparência entre os dedos que se diria ser uma espécie de indecisão, uma espécie de acalmia, um quase telefonar e depois

Não saberia o que dizer, não saberia, não me ocorreria, coraria do lado de cá do lado de cá da conversa, a mesa de jantar nunca posta para jantar, antes arrumada e limpa de migalhas, e do outro lado, não saberia, exitaria, adormeceria nos movimentos, sentar-me-ia nas palavras e as palavras não seriam exactamente as palavras que pensara, que planeara, que estudara, não seriam exactamente estas calças, esta camisa, esta maneira de andar e este sentimento de perfume ao subir para o autocarro»

 

Douda Correria#97

A periferia e outras varandas – João do Nascimento

(ilustrações de Marta Sales/ composição de Joana Pires)

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Imprensa/ Blog´s/ Outros

Por Nuno Costa Santos | 17.06.2019

«A Liberdade de Escrever para Dizer Não

Antes de mais, um aviso: este é um livro cheio de nãos. Em tempo de sins, de sins à vida idílica de rede social e do muito produzir e aparentar, este é um livro de nãos, entre a narrativa e a prosa poética, à falta de arquivo verbal melhor. A vontade de não fazer nada, de não guardar nada nos bolsos. Há uma extraordinária agenda de não apontamentos na qual nada se escreve. Com prazer. Diz a voz que nos fala: “Gosto de sentir o meu não interesse pelo registo, a minha intolerância às fotografias divulgadas e o meu guardanapo de ocasião”.
Este não recorrente remete logo para o Bartleby, de Herman Melville, o que começa por negar os pedidos do chefe, com a sua célebre e apaziguada sentença “preferia não o fazer”. A melhor Filosofia sabe que a grande liberdade não é a de dizer sim, mas a de dizer não.

Escreve o autor, aquele que preferia não o fazer: “Hoje sou fotografia, fotografias, e, por isso, já não deixo que me fotografem, já não me fotografo, basta-me a paisagem”. Uma revolucionária atitude anti-selfie daquele que contempla sem precisar de aparecer. Que fica na cama até mais tarde, de telemóvel desligado, entre a sonolência e o tédio. Que desliga o rádio do carro para não se hipnotizar com as actualidades. Haverá atitude mais contracorrente em relação à valsa nervosa que se dança todos os dias nas esquinas reais e virtuais?

Pessoa vai passeando por aqui: “Hoje sou-vários”. É frequente a voz que fala desdizer o que outra voz havia dito antes. E, entre vozes masculinas e femininas, há um fantasma que se destaca entre os espectros: o de Bernardo Soares. Um desassossegado Soares da periferia aparenta ser o mais escolhido para os roteiros, sobretudo na escolha de fragmentos para a expressão de um sentimento de que o que se escreve é “uma insignificância, um papel para jogar fora”. Porque a poesia “a sério”, lê-se, é da vida-vidinha de “velhotas solitárias”, “prédios em obras” ou “televisões ligadas”. Há uma vocação para fazer desta escrita um inventário de sítios e coisas. De gavetas, pratos, fatos, fotografias, postais, estendais, estores. Como se só esse exercício tivesse alguma importância. Toda a escrita, sabe João do Nascimento, é supérflua mas, ainda assim, o autor escreve, como Beckett nos seus “Textos Para Nada”. Ou Cesare Pavese, em “O Ofício de Viver”.

Não será por acaso que este livro é publicado pela Douda Correria, uma editora que sabe recusar-se, suprema independência, às petições do mercado. Um catálogo que pratica a liberdade de dizer não. Para dizer sim ao que lhe faz sentido.

 

Rádio Quinta do Conde | 05.2019:

http://www.radioqc.com/2019/05/poeta-joao-nascimento-na-rqc.html

 

Lançamento: 8 FEV | 19h | a Sala

Apresentado por Nuno Costa Santos.

Música e leitura por Pedro Moutinho, Luís Guerreiro, Álvaro Faria e André Moniz.

https://www.facebook.com/events/391989501609617/

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João do Nascimento nasceu em 1971, em Lisboa. Licenciado em Ciências da Comunicação, Marketing e Publicidade, pela U. Autónoma de Lisboa. Entre 1996 e 1998 foi criador e redator de campanhas publicitárias, além de assessor de imprensa na C. Municipal de Almada. Entre 1998 e 2008 colaborou regularmente com o IEFP, com textos, poemas e entrevistas, incluídos nos catálogos da Feira Internacional de Artesanato. Como jornalista iniciou-se no jornal A Capital, entre 1999 e 2005, onde, antes de ser chefe de redação, foi redator e editor das secções “Local”, “Nacional”, “Internacional” e “Cultura”, bem como cronista e responsável por suplementos. No “24 Horas”, onde trabalhou de 2006 a 2010, foi redator e sub-editor das secções “O Cidadão”, “Dinheiro e Consumo” e “Saúde”. Em 2012 foi colaborador da “White Brand Services” nas áreas de revisão e tradução. Entre Maio de 2013 e Dezembro de 2014 desempenhou funções de editor de conteúdos de comunicação para a Adega Cooperativa de Palmela. Atualmente desempenha a função de agente imobiliário. Biografia: um rio onde apoiar os braços, Edita-me, Chancela Insubmisso Rumor, 2016. Poesia; escrever enquanto todos dormem, Portugália Editora. Romance lançado em Janeiro de 2009 com prefácio de Valter Hugo Mãe; Do Agreste ao Planalto, Editorial Notícias, 2003. Biografia do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; Duas Pegadas de Água na Chuva, Quasi Edições, 2001. Poesia.

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Douda Correria/ Mia Soave no facebook:

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Contacto/Pedidos:

doudacorreria107@gmail.com

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