Rosto Clareira e Desmaio – Miguel-Manso

DESMAIO

 

O nervo vago sai do crânio pela cova jugular,

suspenso desde o hangar das ideias, a vacilar postura abaixo

 

até à natureza,

 

até ao bosque do coração, por exemplo,

até, por exemplo, ao músculo da fala, monstruoso,

por exemplo, até à pele transpirada onde os insectos famintos

vêm beber.

 

Tudo o mais que povoa e opera cá em baixo,

na natureza humana,

é vagamente transmitido por este nervo, e quando não,

chamamos de síncope vagal ao fenómeno.

 

Desmaio, maduro desmaio, abertura

ao Universo.

Secreção de sentenças e oráculos ponderados nos hangares,

depois convertidos em angustias e esgares.

 

É uma inclinação sem ponto fixo.

Uma infecção a partir da qual.

Tudo o que sai do homem é supersticiosamente impuro

ó arame, diz-me quem te enrolou farpado?

e deverá ser purgado no  excesso ou, no meu caso,

no resfriado que se apanha no vento de feiticeiros e nas coisas

teleguiadas.

 

Operou em mim não sei que inclinação

para o mistério. Fui estrangeiro de tudo menos da velocidade

com que escrevi a palavra do bosque

e depois a esqueci, lançando o meu abismo sobre

o grande xiu!

 

douda correria#51
Rosto, Clareia e Desmaio – Miguel-Manso
(pintura de capa de Bárbara Assis Pacheco / fotografia de Joana Linda / grafismo de Joana Pires)

#51.jpg

 

07.04.2017 jornal Y_Hugo Pinto Santos_Rosto, Clareira e Desmaio.jpg

Jornal Y, 07.04.2017, por Hugo Pinto Santos

 

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