geografia dos ossos – Nina Rizzi

E danço um tango com você

 

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas

acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida

ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.

 

douda correria#35
Geografia dos Ossos – Nina Rizzi
(capa de Hélder Ventura / grafismo de Joana Pires)

#35.jpg

Teresa Coutinho lê Nina Rizzi

Nuno Moura lê Nina Rizzi

Teresa Coutinho lê Nina Rizzi

Lançamento – Bar irreal

Noite Doudona 7- Teresa Coutinho lê Nina Rizzi

Noite Doudona 8- Teresa Coutinho lê Nina Rizzi

Noite Doudona 9- Teresa Coutinho lê Nina Rizzi

 

je t’aime, je t’aime, una película

ele troca o nome da ponte
pela cidade que nasci

como ela, para ela

lapso de memória
melodia infiel

as mulheres passam convidativas
com a diamba às altas madrugadas
dos meus olhos semicerrados

minha raiva não é menor
a da mulher sem orgulho,
da liberdade stop-motion
como signo de bem-te-quero

minha monogamia não é maior
que o peito estilhaçado

entredentes, olha
invisível descuido, permaneço

https://enfermaria6.squarespace.com/blog/2015/6/13/tipitaka-em-lugar-de-poesia

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